Um depoimento.

 

         Como eu disse no documento “Nove de Novembro”, no dia do assassinato dos companheiros o meu filho mais velho, na época com oito anos, tinha uma consulta marcada na fonoaudióloga e o consultório era na Vila Santa Cecília, bem próximo da entrada da Usina, local de todas as manifestações.

         Este é o depoimento de minha esposa, Maria Agda, que estava com ele.

        

         Bem, para começar é preciso dizer que o consultório da fonoaudióloga Miriane era no quinto andar de um prédio que fica, mais ou menos, a quatro quadras do local onde tudo aconteceu.

         A consulta estava marcada para as dezoito horas e, quando chegamos na Vila, já havia um clima de muita insegurança no local, com policiais militares em uniforme de combate fazendo policiamento ostensivo. As pessoas pareciam amedrontadas e mal paravam ou se cumprimentavam. Uma parte do comércio estava funcionando com as portas meio fechadas, já temendo alguma coisa.

         No mesmo andar da fonoaudióloga havia outros consultórios diversos e muita gente nas salas de espera. E, é claro, a maior parte dessas pessoas tinha algum parente trabalhando na CSN. A cidade quase toda tinha algum parente na CSN e as conversas, em geral, giravam em torno da Usina. É claro que, naquele momento, tudo girava em torno da greve e dos operários que estavam lá dentro.

         Por volta das dezoito horas começamos a ouvir os tiros! Foi uma correria, pois todos queriam chegar às janelas para ver o que acontecia. Havia uma janela no final do corredor que dava para a Usina e nós ficávamos tentando ver dali o que estava acontecendo. Algumas mulheres choravam e me chamava a atenção uma menina de 12 ou 13 anos sentada no chão perto da janela e soluçando porque seu pai estava lá na Usina.

         Neste momento as pessoas já não sabiam ao certo o que fazer. Alguns pensavam em descer para ir embora, mas tinham medo do que estava acontecendo em volta do prédio. Outros começavam a telefonar para conseguir alguma notícia da família ou para dizer que estavam bem. E é preciso lembrar que, naquela época, não existia telefone celular. Ou seja, as linhas de telefones comuns estavam ocupadas e todos querendo ligar ao mesmo tempo.

         Na outra extremidade do corredor havia também uma janela e podíamos ver o centro comercial, na Vila. Os soldados marchavam e assustavam as pessoas que corriam para as ruas laterais, fugindo.

         Algumas pessoas descerem para ver como estava a situação na rua e voltaram rapidamente dizendo que não era possível sair do prédio. A polícia estava usando bombas de gás e não dava para sair. Havia muita violência nas ruas e alguns carros estavam com pneus furados.

         Telefonei para o Sindicato, para ter alguma informação, e o Ernesto disse que o melhor era ficar lá no consultório, porque a situação estava muito grave e já havia gente ferida sendo levada para o hospital.

         Mas o tempo ia passando e as pessoas iam ficando mais nervosas. Muitas não conseguiam notícias e algumas já falavam em tentar sair de qualquer maneira. O problema é que sabíamos que as ruas estavam ainda cheias de gás lançado pelos soldados.  

         Por volta das vinte horas a Miriane decidiu que não poderia mais esperar. Ela tinha filhos pequenos que estavam em casa e ela já estava nervosa. Mas seu carro estava no estacionamento, distante do prédio onde ficava o consultório. Ofereceu-me uma carona, já que morávamos no mesmo bairro, e aceitei.

         Ao descermos, na entrada do prédio, pudemos ver o que acontecia na cidade. Os soldados andavam formando uma espécie de corrente, lado a lado, marchando e assustando com o som dos passos marcados. Era realmente impressionante a maneira como intimidavam. Vestidos com uniforme próprio, carregavam enormes escudos, parecendo armaduras medievais. E levavam armas às costas, parecendo fuzis. Algumas pessoas passavam correndo, usando panos molhados para tampar o rosto e proteger do gás lacrimogêneo. Pegamos também panos para nós e mandei o Jerônimo, nosso filho, cobrir bem a boca e o nariz.

         Na entrada do prédio, algumas pessoas aconselhavam a não tentar sair. Saímos do prédio, mas logo fomos surpreendidas por uma correria. As pessoas estavam fugindo dos soldados que avançavam. Entramos em um bar e o dono logo abaixou a porta, ficando todo mundo lá dentro.  

         Passou mais um tempo e a porta foi levantada. Resolvemos que tentaríamos chegar ao carro, mas muitos diziam que era perigoso. Por sorte, um operário se ofereceu para nos acompanhar até chegarmos ao estacionamento dizendo que era um local perigoso, por ser aberto e sem proteção de prédios. Avisou para andarmos abaixadas e perto das paredes, até onde pudesse. Em certo momento eu senti meu cabelo balançar e ainda falei que estava ventando. Ele gritou para eu me abaixar que aquilo não era vento, era bala!

         Mesmo assim eu não sentia medo, ainda. Estava mais preocupada em sairmos daquela situação e levar meu filho para casa.

         Chegamos ao local onde estava o carro da Miriane. O nosso amigo disse para colocar o Jerônimo deitado no chão do carro, no banco de trás, e para nos abaixarmos o mais possível quando saíssemos do estacionamento.

         O cheiro de gás era muito forte. Os olhos estavam lacrimejando e o nariz ardendo muito.   Antes de ir para casa, como ficava no caminho, resolvemos passar no Sindicato para ter notícias. A entrada estava cheia de gente e no saguão havia gente ferida e muitos chorando.

         Foi neste momento que o Ernesto me disse que já havia um operário morto, acho que o Valmir. Nos abraçamos e começamos a chorar... Um pouco por nervosismo, mas também pela impotência de ver tudo aquilo acontecendo. A ditadura já tinha acabado, mas parecia mais viva do que nunca!

         Meu pai foi militar e adorava o exército. Quando eu era pequena, cresci aprendendo que o exército era bom, defendia a pátria, etc. Depois veio a ditadura militar e vi o exército se colocar ao lado dos poderosos e contra o povo. Agora, naquela situação real, era difícil ver o que eles estavam fazendo contra operários que só lutavam por seus direitos.

         Voltei para o carro. Eu sabia que o Ernesto não sairia do Sindicato enquanto durasse a greve e o confronto, mas eu ainda tinha que me preocupar com o outro filho, o Germano, que estava na casa da vizinha.

         No dia seguinte, telefonei para o Rio de Janeiro, para a casa da minha mãe, e contei tudo o que passamos. Pedi que um dos meus irmãos fosse buscar os meninos e minha irmã se prontificou.

         Na quinta-feira eles foram para a casa da vovó e eu preparei uma bolsa com roupas e toalha para levar para o Ernesto, no sindicato. Até hoje ele se lembra da bolsa preta que tinha um logotipo de um sindicato na frente. A situação ainda era muito tensa, dezenas de jornalistas circulavam pelo saguão do sindicato em busca de qualquer notícia. Muitas pessoas estavam depondo sobre o que acontecera na Vila e os advogados do sindicato recolhendo material para uma possível ação.

         Foram dias muito difíceis. O exército dentro da Usina, os trabalhadores fazendo passeatas pela cidade e anunciando que a greve iria continuar. O sindicato não tinha um momento de sossego e toda a cidade se envolvia na greve, defendendo os metalúrgicos. Em alguns bairros havia campanha recolhendo alimentos para manter os grevistas.

         Uma cena que jamais vou esquecer é a da missa na praça, rezada por Dom Waldir. Lembro com todos os detalhes dos trabalhadores levando uma enorme cruz de madeira, ao som compassado de tambores. Depois a cruz foi sendo lentamente erguida e a camisa de um dos operários, ainda suja de sangue, ficou bem visível. Neste momento senti meu corpo todo tremendo. Veio-me à lembrança o corpo de Jesus sendo preso à cruz. E ouvi as palavras de Dom Waldir, falando de dignidade do ser humano e dos direitos dos trabalhadores e depois o povo todo gritando “dom Waldir é companheiro” e “na usina ou na rua, a greve continua”.

         Por fim, guardo um fato que só depois me foi contado. Os meninos foram para a casa da minha mãe na quinta-feira e, para distraí-los, no domingo minha irmã resolveu levar os dois para a Quinta da Boa Vista.

         Ao chegarem à entrada do zoológico, vendo dois policiais fardados, o Jerônimo se agarrou nas pernas da minha irmã e começou a chorar. Durante muito tempo ele guardou aquelas cenas do dia nove de novembro na lembrança. Sempre que via um soldado começava a tremer e segurava na mão da gente com mais força.

         Mas os trabalhadores venceram! Eu desejo que nunca mais o Brasil viva uma situação como aquela, como o Nove de Novembro de 1988, em Volta Redonda.

        

         Maria Agda Guedes Parés